férias

Bom, pensou ele, quando eu chegar lá vai fazer um calorão…

Por isso, reservou 2 camisetas Hering para cada dia da viagem e mais 2 pares de chinelos. Mas não posso chegar lá de chinelos. Acrescentou um tênis confortável e mais um sapato meio-social. Hum… esse sapato não combina com as camisetas nem vice-versa. Devolveu ambos ao armário, mas se lembrou que as camisas mais sociais que teria que ter na bagagem também não iriam bem com os chinelos ou o tênis. Portanto, buscou novamente os sapatos sociais e as camisetas regata, mas tomando o cuidado de colocar ao lado deles umas camisas ‘fresquinhas porém decentes’. Azuis. Hm?… Tudo bem, deixa assim. Meias. Meias? Com esse calor e esses chinelos? Uma gota de suor formou-se em sua testa. Odiava ter que pensar em tantas minúcias ao mesmo tempo. “Sapato sem meeeeia, e pela areeeeia eu vou passeaaaaaar”. Essa estrofe lhe veio à mente, sem que pudesse recusá-la.

É, sapato sem meia é horrível, portanto — se tem o sapato — tem que ter as meias. Mais uma gota se formou em sua testa, agora já ameaçando escorrer entre as sobrancelhas. É o calor das férias, pensou.

E também pensou nos pés-de-pato… Não tenho pés-de-pato, mas posso arranjar alguns.

A pilha de coisas já estava grande, e a missão mal havia começado. Missão? Sim, a de levar o mínimo, indispensável. Hummm, então… fora com os pés-de-pato!

Naquele instante, o Cléo Kuhn, o moço da meteorologia do rádio, anunciou FRENTE FRIA VINDO DO SUL CHUVA CHUVA E CHUVA NAS PRÓXIMAS 274 HORAS.

Espero que não seja chuva a 40 graus, pensou ele confuso, porque aí nem sei. Pegou uns suéteres, que na verdade eram pullôveres, e fez uma nova pilha. Ao lado dos pés-de-pato, afinal, NUNCA se sabe.

Será que os pés-de-pato me servem? Experimentou. Meio apertados, mas se eu… puxa, se eu tirar as meias… Fechou os olhos e agarrou dentro do armário um punhado qualquer de cuecas. Cuecas calças, calças  cuecas — sim, faltavam ainda umas calças jeans e umas outras mais confortáveis. (Hora da terceira gota de suor, acompanhada de uma quarta, menorzinha.)

Era hora, também, de pensar nos mantimentos. Víveres, coisas mastigáveis durante a viagem. Por que se chamaria a isso de Mantimento?? Para MANTer o bom astral na ida e na vinda? Ou seria na ida e na vida? Sim, vida, viver — víveres. Biscoitos integrais com sementes de gergelim: 3 pacotes de 200g. Um pacote de biscoitos recheados tipo Tostines. Puro açúcar. Que mais? Uma maçã e uma pera, grandes. Pacote de bisnaguinhas Seven Boys.

Não vai caber tudo isso na mala, falou ele em voz alta, torcendo para que estivesse enganado.

Esticando-se o olho por sobre a pilha de agasalhos de lã, apenas se via mais pilhas. Foi até a cozinha e preparou um capuccino instantâneo. E abriu o primeiro dos pacotes dos biscoitos da viagem. Nem percebeu. Capa de chuva amarela ou guarda-chuva cinza chumbo? Essa era a dúvida ao primeiro beberico do capuccino. Bebericou mais umas vezes e teve novas dúvidas. Sapatos de borracha ou galochas?

Essa dúvida não era muito pertinente, porque nem galochas ele tinha. As últimas galochas que tinha visto na vida eram as de seu pai, que as tinha posto fora décadas atrás, depois que tinham furado. Mesmo assim, sentiu escorrer pela nuca duas gotinhas sotretas, uma de cada lado. Espantou-as com seu lenço e aiii: toalhas, gemeu — mais uma pilha de coisas.

Preciso me organizar antes de continuar, pensou, e passou a numerar as diversas pilhas com etiquetas auto-adesivas. Ao chegar à pilha dos mantimentos, que era a pilha 11, percebeu que o pacote de biscoitos (aquele) estava quase no fim. Foi até a cozinha e pegou mais dois pacotes. Abriu a geladeira e encontrou também um potinho de yogurt com polpa de frutas vermelhas. Preferia os yogurts com ameixa, mas a falta desses não estragaria suas férias. Teve vontade de abrí-lo também, mas se conteve. Continuou numerando as pilhas — números pares para as coisas de frio e números ímpares para as coisas de calor e as demais coisas que não fossem roupas.

Percebeu que a missão estava se transformando em um glorioso fracasso: o indispensável tinha tomado proporções assustadoras. Quase imensuráveis. O que salvou o dia foi a idéia das etiquetas. Pelo menos um controle estatístico, numérico.

Se eu juntar algumas pilhas, posso economizar etiquetas, sentenciou.

E transformou a pilha 3 (chinelos e tênis) e a pilha 5 (sapatos mais fechadinhos) em uma pilha só. Mas quando foi escrever o novo número na estiqueta, percebeu que tinha cometido um erro. Teria que re-etiquetar todas as pilhas ímpares depois da 5, já que ou a 3 ou a 5 deixariam de existir (ou ambas). Assim, a 7 (camisetas regata Hering) e a 9 (camisas fresquinhas) passariam a ser 5 e 7, respectivamente. Na verdade, poderiam formar apenas uma pilha, digamos com o novo número 5. Logo, a pilha dos biscoitos – a 11, deveria ser re-etiquetada para pilha 7. Bom, pelo menos o número de pilhas está diminuindo como esperado.

O capuccino tínha-se ido, mas algumas novas questões apareceram de pronto. Sentou-se no tapete e enfiou as mãos nos cabelos ruivos. Ameaçou desesperar. Mas então se lembrou de algo esquisito. Ou melhor, esquisito era o fato de ele se lembrar disso apenas agora: não tinha cabelos ruivos! Nunca os tivera ou sequer almejava ter cabelos ruivos. Nem sabia se gostava de cabelos ruivos. Pensou sobre isso por alguns instantes — por sorte, nenhuma das pilhas ousou se mexer nesse momento.

Triiiiiiimm, fez a campainha, e isso ressoou longamente por entre seus pensamentos atordoados. É o táxi e eu estou ferrado.

Não teve coragem de abrir a porta, porém não resistiu à tentação e com cuidado espiou pelo olho mágico. Não, não era nenhum taxista. Pos a mão na cabeça, tentando lembrar se havia ligado ou não para o ponto de táxi. Olhou para o relógio: tinha ainda alguns minutos para transformar aquelas pilhas e pilhas, que cobriam toda a metade leste do tapete como um gigantesco sanduíche aberto, em um equipamento de viagem. Buscou uma mala e ficou triste já no caminho para o quartinho das tralhas: Não seria suficiente, aquela mala. Mesmo assim buscou apenas uma. Começou a puxar para perto de si as pilhas ímpares que, a despeito da regularidade dos algarismos naturais, eram em maior número que as pares. Se eu puser as pilhas pares em malas pares, tudo ficará mais fácil de controlar, pensou. Mas desta vez resolveu não etiquetar as malas ainda, porque não havia mais muitas etiquetas.

O relógio passou a andar um pouco mais rápido — ninguém percebeu.

A primeira mala ficou cheia muito rápido. Ele sorriu, orgulhoso de seu método e do desempenho. Agora falta pouco. Mas deixou de sorrir quando se deu conta que o número de pilhas continuava quase inalterado. Buscou outra mala, maior, que também ficou cheia num upa. Desta vez não ousou recontar as pilhas. De olhos fechados, buscou a terceira mala.

Buscou também uma folha de papel, na qual rascunhou alguns números. Quantas malas caberiam num táxi grande? Precisaria de 4 táxis ímpares e de mais 2 táxis pares. Ou então, fazer várias corridas. Ai, ai. Nem lhe ocorreu que se colocasse apenas malas pares num táxi e apenas malas ímpares no outro, daria uma confusão dos infernos na porta do aeroporto, porque as malas chegariam todas fora de ordem. Teria que tirar a mala 1 do táxi 1, depois tirar a mala 2 do táxi 2, depois voltar ao táxi 1 e retirar a mala 3… e assim por um longo tempo.

A campainha tocou mais uma vez e — sim — era o táxi.

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